Vertente do Homem...

Postado em 28/09/2015


Informação, conhecimento, defesa, respeito. 
A natureza não se repete... e a humanidade precisa ser a mais natural das criações: "Florestas de homens"!
 
Neste arvoredo destaco George Macaulay Trevelyan, historiador inglês, apaixonadamente devoto ao campo e ao ar livre. Ele evidencia um processo maior que a mudança de comportamento: a modificação das sensibilidades, pois de qualquer outra forma seria inconcebível compreender sua paixão pela conservação do cenário selvagem e sua fé nos poderes benéficos da natureza inexplorada. O autor Kheith Thomas amplia a conferência de Trevelyan, pronunciadas na universidade de Cambridge, na quaresma de 1979, com o propósito de expor pressupostos fundamentais de percepção, raciocínio e sentimento dos ingleses do início do período moderno para com animais, vegetais e paisagens, em cujo meio eles passavam a vida, muitas vezes numa proximidade que hoje mal podemos imaginar.
Se nos reportarmos à história da humanidade logo trilhamos o espaço da antropologia, palavra tal  que se origina de dois termos gregos: antrophos, que significa homem, e logia, que significa ciência. Estuda o lugar do homem na natureza, o espaço que ele ocupa bem como as relações que ali se estabelecem. 
 
Por muitos e muitos anos, civilização humana era sinônimo de conquista da natureza. Esta existiria para servir o homem, seja por propósitos práticos, estéticos ou morais. Keith Thomaz diz que o pensamento do início do período Moderno apresentava um viés hierárquico para com a natureza, de forma que o empenho era ampliar a diferença dos homens e dos animais, modo este de se justificar ao próximo e aliviar a própria culpa pelos processos de domesticação, caça, hábitos de comer carne e a vivissecção Mas, se Deus fez os animais, abre-se uma cratera indigesta no comportamento humano que compreende, aos poucos, que os animais são seres sensíveis e podem sofrer. Este comportamento humano pode vir a ter uma leitura cruel, se não fosse a religião e a moral para tentar restringir aspectos supostamente animais da natureza humana. Essas observações levaram os pensadores do início dos tempos modernos a iniciarem discussões a fim de justificar a caça, a domesticação, o hábito de comer carne, enfim, comportamentos humanos, e se ampliou às relações interpessoais, como se o sexo feminino realmente tivesse alma, visto que os ginecologistas ressaltavam os aspectos animais do parto; os pobres eram discriminados por questionamentos acerca da sua humanidade, no que se refere a domínio do calculo numérico, boas maneiras e alfabetização. Entretanto, essa visão do homem no mundo natural não é generalizada, por isso observamos traços de culpa e vergonha sobre o tratamento com os animais.
 
Se referindo aos tempos modernos, Keith Thomaz ressalta a usualidade em se considerar o mundo feito para o homem, sendo todos os demais seres subordinados a ele. No decorrer do período moderno esta visão foi sendo abolida pelo estudo científico da fauna e da flora, estudando e evidenciando a autonomia do mundo natural, e reforçando que este deveria ser entendido em termos não humanos, pois tem uma existência própria e independente. Essa visão era ainda quase impossível de se compreender pelos camponeses e pessoas mais simples que haviam construído uma sabedoria popular, considerada por muitos, na maioria das vezes equivocada, cheia de crenças e simpatias.
Neste sentido, cada vez mais o homem foi encontrando seu lugar na natureza, respeitando e sendo respeitado, levando e deixando-se levar, vivendo e vendo outras vidas passarem... Passam rios, passam montes, e tantas outras vidas passam que a natureza humana instrumentalizou o homem com cinco sentidos.
 
Pele, ouvido, globo ocular, língua e nariz são as portas de entrada da natureza no homem! Cada sentido só é possível por uma estrutura anatômica, fundamental!
 
Olhar e não ver não faz sentido... Só o sentido da visão nos permite distinguirmos cores. O verde da natureza, o vermelho da maça, o azul do céu... o arco irís! Este é o sentido menos desenvolvido no nascimento, mas com o decorrer dos meses vai amadurecendo e, aos seis meses, o bebê já enxerga a uma distância de seis metros. O campo de visão é de nossa propriedade desde o nascimento; assim como npos adultos, os bebês também podem escolher o que olhar, a quantidade de tempo que se quer olhar imagens diferentes, criando assim uma medida para a `preferência visual`.
 
Qual o sabor da vida? O paladar é o sentido que nos propõe  saborear... Alimentos, ervas, raízes... Cada qual com seu sabor. Cada um tem um gosto. Há de se respeitar!
 
Nossas lembranças são cobertas por cheiros. Cheiro de infância, cheiro da casa da vó... e até cheiro de paixão! O sentido do olfato é aguçado desde nosso nascimento; o recém nascido é capaz de saber de onde provém os odores, e também distingui-los.
 
Saber ouvir. Eis aqui uma qualidade adquirida do ser humano. Mas o sentido da audição é inato... Começa no útero materno e é agudo desde o nascimento.
 
Sentir na pele, se arrepiar, tremer... O tato é o primeiro sentido a se desenvolver, e durante os primeiros meses de vida é o sistema sensório mais maduro. 
 
Nossos cinco sentidos são receptores dos estímulos fornecidos pelo ambiente e permitem termos inúmeras sensações. Se pararmos para pensar e observarmos desde quando temos sensações, percebemos que cada vez mais precisamos dar sentido a nossas percepções. A compreensão deste complexo sistema é importante para ressaltarmos as portas de entrada da natureza no homem, assim como os canais que o homem pode abrir para a natureza.
 
As águas e seus rítmos...
As flores e suas essências...
O vento e seus uivos...
As pedras e suas texturas...
As ervas e seus sabores...
 
O homem é o animal de mais longa infância, de maior dependência e de maior fragilidade. Então, conforme escreve Rui Jorge Chamone, os sentidos antes de serem vistos como uma criação alheia ao corpo e suas necessidades, precisa ser compreendido como extensão e aprimoramento do mesmo.
 
Mesmo na lua, o homem não se separa da Terra. É necessário ao astronauta levar com ele ar, água e alimento retirado do solo, tudo que só a biosfera pode oferecer. Com isso, o ambiente natural reclama um respeito dinâmico que se baseia em princípios elementares: a compreensão e a harmonia. O significado de compreensão nos remete a um alcance incalculável, uma abrangência que só mesmo o homem e a natureza são capazes de alcançar. Já a harmonia pressupõe partes, no mínimo duas partes; acordo... equilíbrio... proporção...
 
Um rio, duas vertentes e , enfim, uma confluência. Este ponto de encontro nos convida para um mergulho em águas frescas: a Terapia Ocupacional.
 
No próximo texto um mergulho nesse rio... nessa confluência.... a Terapia Ocupacional na relação do Homem com a natureza.
Raquel Ortega
Terapeuta Ocupacional e Arte Terapeuta



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Categorias: Coluna Raquel Ortega;

Tags: Terapia ocupacional,processo terapêutico,recurso terapêutico,avaliação


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