RIO: as águas que escolhi mergulhar...

Postado em 14/09/2015


Imersa na arte da Terapia Ocupacional há muitos anos, divido com vocês um artigo que escrevi em 2002, denominado RIO, enquanto me pós graduava em Práxis Artísticas e Terapêuticas: a Interface da Arte e da Saúde na USP (http://www5.usp.br/). 
Por anos estudei e pesquisei os recursos naturais enquanto recurso para atividades em terapia ocupacional, porém neste artigo me detive a enfatizar a relação do homem com a natureza.
Vislumbrei um rio e caminhei por dois cursos: a vertente da natureza, retratada em animais, vegetação e águas; e a vertente do homem, enquanto história e sentidos.Essas duas vertentes se confluem, permitindo, assim, fazermos uma ponte entre o homem e a natureza da terapia ocupacional. 
Como a água escoa para todos os lados, estabeleci um contraponto com a arte contemporânea, por meio do artista plástico Frans Krajcberg, polonês, naturalizado brasileiro, que pinta, retrata e esculpe elementos da natureza brasileira em seu estado mais natural.

Falemos um pouco sobre Frans Krajcberg:

Trauma: Segunda Guerra Mundial.
Decepção: Europa pós guerra.

Nesse contexto, o imigrante polonês Frans Krajcberg desembarca no Brasil a procura de renovação afetiva. E é a natureza do Brasil que lhe trará de volta o gosto de viver. Para Krajcberg, a natureza é um grande reservatório de energia vital e de poesia visual, e vale ressaltar que para ele o homem também é natureza.
 
Suas pinturas iniciais eram fabulosas folhas de árvores e lhe valeram o primeiro prêmio de pintura na Bienal paulista de 1957. Com este prêmio, e mais o obtido no Salão Nacional de Arte Moderna, Krajkberg foi a Paris buscar contato mais vivo com arte.  Krajcberg traz na arte da fotografia a prova e a justificativa do potencial infinito da visão. "Sabe muito bem captar o estético, o sensível, o perceptível, o neural, o animal, o sensorial, o sensual; mas não é apenas isso que busca: não busca ser belo pelo puramente estético, busca ser impuramente estético para ser belamente humano." (Houaiss, 1987).
 
Vem com uma linguagem que não define significado e significante, apenas um referencial imprimindo uma concretude simbólica e semiótica.
Aparentemente limitada, a linguagem icônica a que Krajckberg recorre é relimitada por sua máquina fotográfica e ainda delimitada pela `cópia da natureza`. Cópia, em latim e nas línguas românticas, e o português, tem dois sentidos. Conforme Antônio Houaiss, os sentidos de imitação ou reprodução da Natureza e o de abundância não se esgotam. Com a firmeza de que nossa natureza é inesgotável e imensurável, cabe ao homem aproximar-se dela, já que vem se afastando há tanto tempo, para descobrir infinitas variações e revelações que lhe são cada vez mais próprias.
As imagens que saem do filtro fotográfico, deste filtro de osmose do sentimento, conforme Pierre Restany (1987) são belas como o amor à vida, da qual são reflexos. "Os crepúsculos tornavam-se assim imensos álbuns furta-cores de pintura impressionista e abstrata" (Restany).
 
Krajcberg tem na fotografia um catalisador sensível da percepção, e nessa inundação de estímulos a qual ele mergulha seus olhos para surpresas e deslumbramentos, instaura-se uma transe no reencontro com o espírito da inocência, o espírito cândido das crianças puras e dos santos. Atrás disso tudo, esses olhos lêem uma mensagem da natureza que instaura disciplina no pensamento e reordena sentidos no espaço-temporal da civilização humana.
A natureza passa a ser a arte (Aquino, 1972). Através de diferentes técnicas estão presentes em suas obras pedras, terras coloridas, cipós trançados, troncos de árvores e relevos deixados pelo mar na areia dura da praia.
Como escultor, Krajcberg usa grossos cipós recolhidos em florestas mato-grossenses devastadas pelo fogo, ou troncos de árvores mortas por ação parasita, no interior da Bahia. Ele serra, poli, emenda, e ainda pinta suas esculturas com tintas feitas do solo local. "Seu trabalho consiste em usar o objeto morto e dar-lhe vida outra vez. (Proença, 1995)
Krajcberg propôs a natureza e a si mesmo um diálogo. Os elementos que ele buscou no olhar tocou com suas mãos para transformar, criar e construir também os tocou, seja pela estética, pelo valor, ou simplesmente pelo toque. Uma via de mão dupla onde tudo se transforma, e assim forma-se história... A História da Arte não pode deixar de citar este artista contemporâneo, por suas contribuições. A história da sua própria vida tomou outros e novos rumos... E a história do desenvolvimento do homem propriamente dito redescobre um viés potencial e opcional de ser.


 
 
 
No próximo texto continuaremos nadando neste RIO... 


 



Raquel Ortega
Terapeuta Ocupacional e Arte Terapeuta
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Categorias: Coluna Raquel Ortega;

Tags: Terapia ocupacional,processo terapêutico,recurso terapêutico,avaliação


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