Confluência: Terapêutica Ocupacional na Relação Homem/Natureza

Postado em 05/10/2015



Terapia Ocupacional, conforme definição da Organização Mundial da Saúde (OMS), é a ciência que estuda a atividade humana e a utiliza como recurso terapêutico para prevenir e tratar dificuldades físicas e/ou psicossociais que interfiram no desenvolvimento e na independência do cliente em relação às atividades de vida diária, trabalho e lazer. É a arte e a ciência de orientar a participação do indivíduo em atividades selecionadas para restaurar, fortalecer e desenvolver a capacidade, facilitar a aprendizagem daquelas habilidades e funções essenciais para a adaptação e produtividade, diminuir ou corrigir patologias e promover e manter a saúde e qualidade de vida.

Uma importante habilidade da Terapia Ocupacional é, além da avaliação global, promover ao paciente um contato com uma atividade minuciosamente analisada, adaptada e buscada especialmente para obtenção do sucesso no processo terapêutico, almejando a qualidade de vida.

Nos últimos dois textos falamos da vertente da natureza e da vertente do homem, separadamente. Agora vamos, sob o olhar da terapia ocupacional, evidenciar o potencial terapêutico da relação homem/natureza enquanto atividade terapêutica ocupacional.

Falemos sobre terra:

O psicanalista Bayro-Corrochano escreveu sobre o elemento terra, e refere que

"Por aquilo mesmo que a terra é, uma matéria natural, a argila molhada pode ser acamurçada ou não, áspera ou suave e de diferentes cores: pode ser vermelha - a mais comum -, rosa, branca, verde e negra. É uma matéria viva e sensual, que adquire muito rapidamente a temperatura do corpo da pessoa que modela e não requeriam grande técnica para ser modelada ou esculpida. Pode-se dizer que é uma matéria terapêutica em si. Entretanto, arriscamos ir um pouco mais além para fazer uma primeira constatação: a terra suporta tudo. É uma matéria receptora das tensões psíquicas, ela permite a descarga das tensões psíquicas, ela é maleável, amassaste, terra-mãe-acolhedora, uma matéria que permite um certo abraçamento. Ela é agradável de manipular, atendente de todos os impulsos do corpo, definitivamente, fonte de prazer. Mas é uma matéria que pode ser temível, também, pelo seu forte poder de indução e de despertar emoções."

Este psicanalista nos dá uma breve análise do material terra, elemento primário no mundo natural. Enquanto material disponível para atividades terapêuticas ocupacionais, a argila só requer mãos para criar, construir, demolir, transformar, moldar e dar existência ao objeto. Molhadas, as partículas deslizam umas sobre as outras; quando secas, as partículas não se movem e a argila quebra com facilidade. "No trato com a argila, o homem descobre, sem consciência de esforço, que sua liberdade cresce à medida em que aumenta sua capacidade de dar a esse material pesado a leveza do seu pensamento" (Benetton, 1989).

A terra, este lugar para inscrição de prazer e desprazer, pode ser um material rico em traçados de trajetos pulsionais, emocionais e de sensações, como um material pré-verbal, sem que isso signifique fora da linguagem.

A partir da terra podemos fazer brotar diversos materiais, endossado por Rui Jorge Chamone, que refere serem materiais disponíveis para o terapeuta e para o paciente todo o mundo, e tudo no mundo!


Falemos sobre água:

 


Um campo menos conhecido da terapia ocupacional é a natação terapêutica. Este trabalho utiliza fundamentos da psicomotricidade com objetivo de ampliar condições de habilitação e reabilitação dos aspectos motores, emocionais e sociais, promover independência do paciente na água e desenvolver um deslocamento aquático próprio (IRLEZ). Além do favorecimento dos processos de vinculo terapeuta/paciente, estreitamento de relações de confiança e desmistificação do toque.


Os efeitos terapêuticos clinicamente comprovados de atividades em água aquecida são o alívio da dor e do espasmo muscular, relaxamento, manutenção ou aumento da amplitude articular, melhora da atividade funcional da marcha, aumento da circulação sangüínea e consequente melhora nas condições da pele, desenvolvimento de tônus muscular e força de resistência. O paciente quando emergido em água aquecida tem um aumento da temperatura metabólica corporal e com isso aumento da demanda de oxigênio com um aumento de freqüência respiratória proporcional (SKINNER, THOMPSON). A água promove tal liberdade de movimentos que proporciona um aumento da auto estima pela capacidade de se realizar atividades que podem não ser possíveis na terra.

Tanto o exemplo da argila quanto o da água como elementos da natureza no tratamento em Terapia Ocupacional, denotam ao paciente uma exigência para uma adaptação a uma realidade proposta. Esse processo de apropriação da realidade "implica necessariamente a reestruturação dos vínculos e das formas adaptativas estabelecidas pelo sujeito" (PICHON-RIVIÈRE). Cabe ao terapeuta instrumentalizar o paciente para o enfrentamento dessas novas situações, pois a capacidade humana de representar e de conceituar inicia-se nas habilidades de mover e sentir, envolvendo todo plano afetivo e psicológico. Consequentemente, perceber não é uma ação passiva, mas, sim, uma conquista ativa que, na terapia ocupacional, envolve o homem num ataque direto às coisas externas, propondo, assim, uma reconquista de si e do mundo!

Até então falamos de duas vertentes, a da natureza e a do homem, e sua confluência.... Porém toda essa imensidão de água banha uma margem: a arte!

No sentido da terapia ocupacional como Arte, observamos a potencialidade de encarar suas ações terapêuticas sempre como uma possibilidade de mudança, de produção do novo, denominada poiesis (ALMEIDA). Em nossa ação, seja pelo tipo de atividade empregada, seja pela possibilidade de gerar atos criativos estéticos com nossos pacientes, podemos referir que a Terapia Ocupacional trabalha com arte. Assim, propomos "criar condições para conquistar ou reconquistar na subjetividade um certo estado no qual seja possível suportar a contingência das formas, desgrudar de um dentro absolutizado vivido como identidade, navegar nas águas instáveis do corpo aformal e adquirir a liberdade de fazer outras dobras, toda vez que um novo feixe de sensações no bicho assim exigir" (ROLNIK)

No campo terapêutico é através do exercício da criatividade que se busca a criação de novas formas de ser, sentir e pensar. A expressão torna-se um meio de construção. No campo artístico, a arte contemporânea imprime a arte como experimentação e construção.

De pedra em pedra vamos engenhando construções que nos abrigam, protegem, acolhem e que, além de tudo, gravam imagens ímpares, inéditas, tanto quanto as obras do artista plástico Frans Kragcberg, por seu profundo interesse em recriar artisticamente elementos da natureza. A terra terapêutica, na forma de argila, ou a água, na forma de natação terapêutica, se confluem em Kragcberg. Terras coloridas são pigmentos para, junto com água, preparar tintas para suas telas. As cores que surgem são verdadeiramente terras semeáveis, e como é importante fazer cores que não sabemos nomear e que formam a base de tudo....

Raquel Ortega

Terapeuta Ocupacional e Arte Terapeuta

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Categorias: Coluna Raquel Ortega;

Tags: Terapia ocupacional,processo terapêutico,recurso terapêutico,avaliação


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